Em audiência pública na Comissão de Assuntos Sociais (CAS), nesta quinta-feira (27), representantes de trabalhadores e de empregadores manifestaram posições antagônicas a respeito de projeto de lei que permite a suspensão do contrato de trabalho, de dois a cinco meses, em caso de crise econômico-financeira na empresa (PLS 62/2013). Apesar disso, ao fim houve sinais de boa vontade de todos no sentido da elaboração de um texto de interesse comum para ser levado a voto e aprovado.
– Podemos começar a trabalhar em uma legislação que seja mais adequada para a eventualidade de uma crise e que incentive a negociação, mas com mecanismos que dê proteção em relação ao trabalho e não apenas ao empregador – admitiu José Eymard Loguércio, assessor da Central Única dos Trabalhadores (CUT).
Na maior parte do tempo, porém, os representantes dos trabalhadores negaram a necessidade de reformas na atual legislação nos moldes do projeto, do senador Valdir Raupp (PMDB-RO). Um dos argumentos é de que no momento o país não enfrenta crise que justifique legislar sobre o tema. José Loguércio observou que há assuntos muito mais urgentes, a exemplo do combate ao trabalho infantil e ao trabalho escravo.
Depois de lamentar que um projeto semelhante tivesse sido arquivado em 2005, Alain Mac Gregor, da Confederação Nacional do Comércio (CNC), afirmou que os indicadores econômicos não são tão positivos e que o melhor é pensar a tempo em soluções preventivas.
- Depois que o fogo começa nem sempre adianta jogar água – argumentou.
A audiência foi proposta pelo senador Paulo Paim (PT-RS), que assumiu a relatoria da proposta no início desse ano. O presidente da CAS, senador Waldemir Moka (PMDB-MS), coordenou o debate.
Medidas atuais
Os representantes dos trabalhadores lembraram ainda que Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) já prevê mecanismo para momentos de crise na empresa. Moacyr Roberto Tesch Auersvald, da Nova Central Sindical de Trabalhadores (NCST), explicou que hoje é possível, de forma transitória e também por meio de acordo ou convenção coletiva, reduzir a jornada em até 25%, com rebate proporcional nos salários. Observou ainda que não há impedimentos para que se negociem outras soluções.
- Causa estranheza que num momento de pleno emprego venha um projeto desse tipo, limitando e tirando direitos dos trabalhadores – afirmou Moacyr Tesch.
Foi também lembrado dispositivo incluído na CLT depois da crise econômica de 2008, quando passou a ser possível a suspensão não remunerada dos contratos para participação do empregado em curso ou programa de qualificação profissional, o que também requer previsão por meio de convenção ou acordo coletivo. Nesse caso, os trabalhadores recebem seguro-desemprego.
Reinaldo Felisberto Damacena, que representou a Confederação Nacional da Indústria (CNI), destacou que o “espírito do projeto”, é a manutenção do emprego, e não “subtração de direitos”. A seu ver, a legislação precisa ser adequada aos tempos atuais, em que a competitividade é essencial para a manutenção do emprego. Ele disse ainda que os dados econômicos atuais "são preocupantes”, que não se pode afastar o risco de uma crise e que isso justifica avançar com o projeto.
- Pode haver aperfeiçoamentos e estamos abertos ao diálogo. O nosso lema é a prevalência da negociação coletiva – afirmou.
Alain Mac Gregor, da CNC, salientou que a intenção principal é mesmo preservar o emprego. Ele disse que nada é pior para uma empresa do que se ver diante de um quadro em que as demissões são obrigatórias. Além dos custos envolvidos, na retomada será preciso contratar mão-de-obra nova, nem sempre qualificada.
Diante de quadro de deterioração das contas públicas, baixo crescimento e inflação persistente, o momento econômico de fato envolve incertezas, reforçou Adriana Giutini, da Confederação Nacional do Transporte (CNT).
Ubiraci Dantas de Oliveira, da Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB), aproveitou para defender política econômica que favoreça a indústria nacional e a preservação dos empregos. Quanto ao projeto, disse se tratar um “Frankenstein” cujo objetivo é mesmo tirar direitos.
Fonte: Agência Senado