Conteúdo | AVÓS, PAIS, FILHOS E NETOS


Avós, pais, filhos e netos

Sábado passado, mal o juiz apitava o final do jogo da seleção brasileira, o telefone tocou. Era meu sogro querendo saber como estava o neto que, tal como ele, é apaixonado por futebol. E a preocupação do avô veio muito a propósito, pois o neto estava mesmo chorando em um canto e armando um plano para atear fogo na camiseta amarela.

É impressionante contemplar como é forte, intensa e, ao mesmo tempo, saudável essa relação que se estabelece entre avós e netos. Não sei o que se passa com o leitor, mas a mim sempre causou surpresa ver meus pais fazendo pelos netos aquilo que jamais permitiram que eu fizesse.

Lembro-me dos anos de minha infância. Como as horas passavam depressa enquanto ajudava minha avó a raspar o figo verde na palha de arroz para fazer o doce que só ela, e nunca ninguém mais, soube fazer tão bem. O meu avô esfregando açafrão em meus lábios quando fiquei acamado por vários dias com sarampo, e como a preocupação comigo dava um tom mais grave às suas rugas.

Como dói agora sentir o sabor do queijo fresco que derretia no fogão à lenha de minha avó, enquanto ela, sem pressa, escolhendo feijão, dizia-me: “filho, aproveite bem a sua infância, pois um dia há de lembrar desse queijo derretido, mas o tempo não volta de jeito nenhum”.

Mas, se, em regra, as relações entre avós e netos são tão gostosas e saudáveis, o mesmo não ocorre entre avós e pais, que costuma ser marcada pela tensão. E isso se manifesta, no mais das vezes, pela divergência a respeito da educação a ser dada aos netos. É á avó que quer dar aquele chazinho para cólica do bebê, que encontra forte resistência da mãe, que segue à risca o conselho do pediatra. É o avô que dá doce ao neto meia hora antes do almoço, contrariando as regras da casa dos pais. Enfim, cada um sabe quando e como surgem as desavenças que têm como pivô da discórdia as diferenças de critérios entre pais a avós na forma de tratar os assuntos familiares.

Penso que essa tensão possa se reduzir muito com empenho e paciência de todos. Os pais poderiam ser um pouco mais humildes para aceitar que os avós têm mais experiência, de modo que o que dizem merece crédito. E mesmo quando não concordam com os conselhos, hão de saber ouvir com respeito as opiniões de quem, no fim das contas, mesmo quando atrapalham, apenas querem ajudar.

Outro ponto de luta do casal é evitar que essa tensão reflita no próprio relacionamento entre marido e esposa. É que há uma tendência de a mulher despejar no marido as insatisfações que mantém com o sogro e com a sogra, e de o marido fazer o mesmo com o pai e mãe dela.

E também os avós devem contribuir para ajudar o relacionamento conjugal dos filhos. Ainda que os avós tenham mais experiência, devem se esforçar por não interferir demasiadamente na vida dos filhos, dando conselhos apenas quando lhes for solicitado. Por vezes, será o caso de aconselhar mesmo sem pedido, mas há que se ter um profundo respeito pela liberdade dos filhos, considerando que é melhor deixar que aprendam errando do que, com a sua interferência, causar desavenças capazes de atrapalhar a vida da nova família que se formou. Afinal, é triste, mas quantos casamentos ruíram porque não souberam repelir a injusta e indevida intromissão dos pais do marido ou da esposa.

Os avós podem contribuir muito para a formação dos netos. Avós e netos estão num mesmo ritmo de vida. Observemos como seria uma mesma cena, ora com o avô, ora com o pai levando a criança à escola. O pequeno pára a observar uma formiguinha no caminho. A reação do pai será mais ou menos do tipo “vamos logo, entra na escola que o papai tem de ir trabalhar”. O avô, ao contrário, pára, observa com o neto a formiguinha, se souber, dirá de que espécie é, do que se alimenta, enfim, contribuirá para ampliar o universo da criança, coisa que os pais, ante a preocupação da vida moderna, não terão tempo ou paciência para fazer.

Convém, pois, que se estimule esse convívio saudável e muitas vezes insubstituível para as crianças.

E é muito importante que avós e pais saibam manter um bom relacionamento para não permitir que as desavenças retirem mais isso da vida das crianças, de modo que acabem por trocar aquela pescaria com o vovô por algumas horas no vídeo-game ou no computador.

 

Fábio Henrique Prado de Toledo

É Juiz de Direito em Campinas. Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Articulista do Correio Popular de Campinas e de alguns outros jornais. Casado, pai de 8 filhos e Membro do Conselho de Administração do Colégio Nautas.